• Cuidando de Quem Cuida

    Cuidando de Quem Cuida

    Wilson Albino Pereira

    À primeira vista, emoção, intuição e sensibilidade são palavras que descrevem o jeito de ser de @ramuslaemanueli, 31 anos, psicóloga clínica, hipnoterapeuta especializada em traumas, ansiedade e alteração do humor, e também pós-graduanda em neurociência afetiva. Foi a suavidade da voz que ditou o tom, enquanto os gestos e os sorrisos humanistas, respectivamente, acolheram e apontaram o rumo da palestra. Tudo isto e muito mais fez parte da programação do dia 17/07/2025, quinta-feira, na sala de vídeo na da Escola Municipal Professora Ana Guedes Vieira em Nova Contagem.

    A roda de conversa, que teve como tema principal: “Cuidando de Cuida”, trouxe por meio de uma linguagem muto acessível, um assunto delicado: a saúde mental de quem tem como missão cuidar, proteger e zelar pelo bem estar de filhos diagnosticados com (TEA) transtorno do espectro autista, ou (TOD) Transtorno Opositivo Desafiador, ou (TDAH) Transtorno do déficit de atenção com hiperatividade dentre outros. A psicóloga falou sobre a importância dos responsáveis buscarem uma rede de apoio dentro da própria família.

    Houve diversos bons momentos durante a palestra, mas tanto as técnicas de respiração, que de acordo com a psicóloga, possuem bases cientificas e são ferramentas poderosas para a regulação emocional, quanto o ato de abraçar-se consigo e se sentir seguro, trouxeram acalentos por meio da experimentação.  Contudo, a partilha das vivências, das experiências e da dura realidade de cada família, fez brotar lágrimas em muitos olhares.  

    Em entrevista, Ramusla reforçou a importância da fé (espitualidade) aliada à neurociência.  “O uso de psicotrópicos devidamente receitados pelos médicos é de extrema importância. Embora ainda haja alguns tabus”, informa e continua, “ela (a medicação) em alguns momentos é essencial, pois não substitui a psicoterapia e pode ser uma grande aliada nas horas de fragilidade emocional”, conclui.

    Ao final da palestra, fiquei pensando nos males causados por estes acelerados tempos ultramodernos, na falta de empatia e nas incontáveis formas de intolerância. O homem, que já explorou as profundezas marítimas, o solo lunar e domina diversas fontes de energia ainda desconhece ou não entende bem os sentimentos, medos e desejos que trazem dentro de si. Mais do que nunca é a hora e a vez de quem cuida se perguntar: como estou me sentindo hoje?­­­­

    P.S:.  A Psicóloga aceitou o convite que foi realizado pelo Atendimento Educacional Especializado (AEE), que é um serviço complementar ou suplementar ao ensino regular, oferecido a alunos com deficiência e transtornos globais.

  • Início – Cacos De Um Memorial

    Início – Cacos De Um Memorial

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    Sou o único filho de uma união à moda antiga, ou seja, machismo predominante e condescendência feminina.

    Meus pais não estudaram, mas ainda assim, transbordavam conhecimentos. Eram donos de outros saberes. Foram eles meus primeiros professores.

    Certa noite, ganhei de presente uma cartilha de nome “Caminho Suave.” À luz da lamparina descobri uma coisa: o que une gente e livro tem nome – magia. Por isso considero a leitura minha cruz… minha luz… minha delícia.

    Vivi em áreas rurais. Lugares longínquos de escolas. Só iniciei o primário, definitivamente, aos dez anos.

    Em minha meninice houve períodos difíceis, épocas de privações alimentares, inclusive. Mas, em todo tempo, tive saciada minha fome de literatura. Contudo, quem de fato lançou a semente literária em meu coração foi uma professora de nome Tania Soares França Martins . Ela formou leitores em minha turma quando pediu que sentíssemos os livros, e, que estes eram ótimos amigos… Ela falara a verdade.

    Hoje, minha pele já não tem a mesma elasticidade d’antes, há rugas em torno dos meus olhos e minhas têmporas estão cobertas por cabelos grisalhos.

    Já sei… já sei… enquanto muitos profissionais já estão com suas carreiras consolidadas, vidas estabilizadas e muitos sonhos realizados, eu ainda semeio letras nas brisas, cultivo lavouras de narrativas e alegro-me ao ver germinar, florescer e frutificar as minhas tantas histórias https://dusoutros.wordpress.com/.

    Ah!!! E, por favor, sem essa de dizer: “no meu tempo…” Enquanto houver boas histórias para contar, meu espaço é aqui, e meu tempo, agora.

  • Arte serve para quê, mesmo?

    Arte serve para quê, mesmo?

    Wilson Albino Pereira

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    Já duvidei que pergunta puxasse pergunta, mas quem cursou a disciplina “Arte e Estética” e conheceu as ideias de Pierre Cabanni, Anne Cauquelin e Ferreira Gullar compreendeu que a arte tem finalidades diversas: narrar, provocar, situar, contextualizar, ordenar e, inclusive, entreter.

    Ao assistir um filme, quem se acomoda na poltrona diante de uma tela de cinema ou TV sabe, antecipadamente, que tudo não passa de encenação. No entanto, se, mesmo assim, a pessoa se indignar, chorar, xingar ou questionar, então, já foi provocada. O gancho arpado da arte, aquele ponto de interrogação em forma de anzol, acaba de fisgar mais um.

    Quem se atraca a um livro, de qualquer gênero literário, e, com ele em punho, esquece o mundo lá fora, ao mergulhar verticalmente na história, tem consciência de que as coisas escritas ali podem não corresponder com a realidade. Mas quantas vezes o leitor se identifica com algum personagem e, a partir do livro, se pergunta: quem sou? De onde venho? Para onde irei após meu último brado? Qual meu papel social? Quais meus valores e minha visão de mundo? Qual minha opinião em relação a tal assunto? O que trago em minha bagagem cultural? Em contato com a arte, o leitor pode produzir respostas bem diversas, e complexas.image

    A arte estrutura aspectos narrativos, linguísticos, rítmicos e estéticos, dentre outros. Por meio dela, aponta-se o estilo ou a completa ausência dele. Na arte, é possível encontrar informação ou diversão, dúvida e fé, certezas contrárias nascidas da mesma literatura religiosa. Quem busca respostas claras, elucidação e doutrinação por meio da arte talvez saia mais confuso. A arte também possui seus labirintos.

    Por meio da arte, o homem renasceu senhor de si, das ciências, das serras, dos ares e dos mares. Ali, o homem registra sua eterna inquietação, sua incansável busca. O descontentamento humano com o presente, o sonho de retroceder no tempo para mudar o passado, e a tentativa de vislumbrar o futuro também são todos sentimentos deflagrados pela mesma arte.image

    A arte proporciona conscientização sociopolítica quando incita a critica, quando facilita a compreensão e as idealizações, quando o homem se percebe falível nos ideais, perecível ao tempo e sujeito a ser escravo de seus próprios desejos e vícios. Neste ponto, a arte se faz mais presente do que nunca. Ela assume a vez do espelho, que revela parte da complexidade humana.wpid-20141126_145611-1.jpg.jpeg

    Talvez haja, na arte, registro que possa explicar ou questionar o desejo que alguns homens têm de abreviar ou alongar a existência. O mais incrível é que o conjunto de transformações eterniza desenredos. Por meio da própria arte, alguns homens se tornam eternos.

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  • Antes, durante e depois

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    (Warley, Danilo,Miriane, Igor, Rúbia, eu, Christian NOSSO ÚLTIMO TIG – foto: Paula Alves

    Wilson Albino Pereira

    “Mestre não é quem sempre ensina, mas quem, de repente, aprende”. Assim falou João Guimarães Rosa, pelos lábios de Riobaldo, no clássico Grande Sertão: Veredas. Às vezes, por ignorar esse dizer, alguns alunos, no momento da apresentação do TIG, o Trabalho Interdisciplinar de Graduação, preferem olhar para o próprio sapato, ou para o telhado, ou para qualquer outro lugar. A ideia é fugir do olhar avaliador. Enfileirados, silenciosos e apreensivos, testa a testa com os professores, dez minutos parecem uma eternidade.

    Antes de iniciar as apresentações no Circuito Acadêmico, o palavrório da gente reunida ali era capaz de inundar meio mundo. Os ocupantes da Cidade do conhecimento, apesar da tensão, celebraram o saber.

    Cada grupo é diferente na composição, e, principalmente, na escolha dos temas. Idênticos? Só medos, incertezas e sonhos. Naquele vasto e fértil campo das experiências, não há conceito visto em sala de aula que não possa ser aplicado.

    Por exemplo, qualquer gesto, mesmo o mais sútil, para ser interpretado, recebe “o luxuoso auxílio” da Semiótica. Uma lágrima rebelde, fujona e quente pode significar alegria por causa do êxito, fruto do esforço coletivo, ou pode, também, significar tristeza porque o grupo sabe que a “coisa” não foi sensacional.

    Afora isso, o choro pode significar ódio dos equipamentos que funcionaram perfeitamente nos quinze minutos anteriores, porém, simplesmente, entraram em pane. Nesse rol de desacertos, quem ocupa o topo da lista são as caixas de silêncio, e não de som, já que emudecem como num passe de mágica.

    Também entram nesse time fabricador de prantos, computadores, pen drives e CDs, que, sem mais nem menos, resolvem “pirraçar”: travam e fazem até os mais incrédulos acreditarem nas mil vezes malditas leis de Murph. Aí o choro é convulso.

    Ah, e se alguém faz aquela pergunta – “O que mais falta dar errado?” – como nem tudo é “tão ruim que não possa piorar”, um transformador “estourado”  basta para tornar luz em trevas. Aí, a choradeira é grupal.

    Transpostas as barreiras, os temores se transformam em recordações que, quando evocadas, provocam os risos. O resto, a festança cuida de converter em doce aquele gosto salgado que as lágrimas, rebeldes, fujonas e quentes, insistem em deixar no paladar das gentes.

  • A arte de cuidar dos mortos

    A arte de cuidar dos mortos

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    Foto: Emerson Ferreira

    Wilson Albino Pereira

    Pontualmente às 19h, e, em noites alternadas, ele veste o jaleco e separa numa bandeja as seguintes ferramentas de trabalho: pinça grande e pequena, bisturi, tesoura, dissecadores, aspirador, agulha em ‘S’ e linha.

    Antes de iniciar sua participação no intervalo que existe entre o falecimento e o enterro,  Cássios Ferreira dos Santos, 43, tanatopraxista, empurra uma maca até o necrotério. Ao sacar do ‘gavetão’, um cadáver, ele confere etiqueta, laudo e corpo.

    Sua função é retardar os fenômenos cadavéricos. Trocando em miúdos, é obrigação de Cássios impedir que vermes, inchaços, ou vazamentos de líquidos escuros e fétidos venham a ‘estragar’ o velório. “Amo o que faço! O trabalho é simples demais, basta ser vocacionado para tal”. afirma.

    “É claro que, ter bons pulmões para suportar o odor que os corpo exalam, não cair nas ‘armadilhas’ da mente pois, o medo pode estragar tudo, e o mais importante,  colocar amor em tudo que fizer, são coisas que ajudam”, explica.     

    Ao ser retirado do necrotério, se os olhos do falecido estiverem semiabertos, dão aspectos de vivo ao morto. Logo em seguida o cadáver é levado a uma sala reservada, ali, nu, o corpo é filmado, A intenção é constatar se há sinais de ferimentos. É, também, uma forma da funerária se resguardar, caso algum parente acuse a empresa de ter provocado lesões no defunto.

    Suicidas, afogados, baleados enfim, sem exceção, todos são tratados de forma igual depois que se descobre a causa mortis, a hora do falecimento e do enterro. Frio, azulado e endurecido, o finado é acomodados numa mesa de superfície metálica. “Quase nunca tenho tempo de pensar, que horas antes, aquelas pessoas estavam vivas. Corro contra o tempo para não atrasar a cerimônia de despedida dos parentes”, diz.     

    No instante em que Cássius falava sobre a higienização dos corpos, perguntei se ele já havia presenciado casos de necrofilia*. “Isso nunca”, categorizou. “Sabe, ao contrário do que os leigos no assunto pensam, aqui, corpos não são violados, puxados ou arremessados, a presença de câmeras impede qualquer ato fora do protocolo”, completa.       

    Dado o primeiro banho, em seguida duas incisões são feitas nas artérias carótida e jugular. Através destes cortes, à medida que o sangue é drenado, uma mistura feita com hidróxido de benzeno, álcool metílico, sorbitol, tetraborato de sódio, eritrosina, glicerina e corante, o tanatofluido, é bombeado para dentro do sistema circulatório, provocando assim a morte das bactérias e o a enrijecimento do corpo.

    Antes de costurar as incisões e vedar com algodão os orifícios do finado, um aparelho de nome vara trocadora, ligado a uma bomba de sucção, é introduzido no adomem através de um pequeno furo feito abaixo do umbigo.Com o auxílio dessa ferramenta, todos os líquidos e semilíquidos existentes no cavidade abdominal são retirados.

    Perguntado em que pensa enquanto trabalha, Cassius respondeu: “Sinceramente? Me concentro muito antes de iniciar os procedimentos. Uma vez começado o serviço, não penso em mais nada. Nem durante e nem depois”, informa.

    “Sempre que falo sobre o meu trabalho, percebo o preconceito nos rostos, nos gestos e nas brincadeiras das pessoas. É uma arrogância besta, sabe? Confesso  que às vezes, atitudes dessa natureza me deixa chateado. O povo nem imagina que no fim do fim, tudo e nada valem o mesmo preço”, lamenta.

    Talvez, por causa da pressa, ou por falta de interesse, ou por qualquer outro motivo, deixa-se de prestar atenção em gente que faz do trabalho uma arte. São estas pessoas, que por meio da ética, vocação e seriedade, encontram prazer em intervir, inclusive, nos fenômenos biológicos.

     * Atração sexual pelos cadáveres.

    * Funcionário responsável por realizar o preparamento do compor para o velório.


  • Capitã dos olhares

    Capitã dos olhares

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    Michelle Sá foto: Wilson Albino

    Por Wilson Albino Pereira

    “Tô atrasada mas, tô chegando. Perdi a hora aqui. Me desculpa? Vou chegar às 11h, tá? Tô correndo aqui. Tô indo. Você espera?”, estas palavras foram escritas por Michelle Sá na terça-feira, 13 de abril de 2015, e, enviadas às 10:15h por meio do menssenger.

    Foi também na mesma data que, atravessei pela primeira vez, os umbrais da porta que dá acesso ao prédio de Belas Artes da Universidade Federal de Minas Gerais, (UFMG), local escolhido por Michelle para conceder entrevista. Logo na entrada saudei ao porteiro que, retribuiu o cumprimento, em seguida, percorri um corredor largo que desemboca numa espécie de espaço de convívio.

    Lá dentro é amplo. Quem avança em linha reta,  passa por uma arquibancada que, também serve de degrau e margeia uma sala retangular e funda, na qual velhas cadeiras e mesas de madeira pintadas de amarelo contrastam com chão, que é vermelho. Já a iluminação do ambiente fica por conta dos raios solares, estes atravessam uma cúpula semitransparente, e, ‘derrama’ luz em todas as direções.

    A principio pensei em tomar um café mas, mudei de ideia. Acomodei-me no “degrau/arquibancada” de frente para saída, e de olhos bem abertos, feito dois girassóis, constatei que ali estavam reunidas  as gentes de visuais mais diferentes que já havia visto.

    Cinco rapazes barbudos e cabelos trajando camisetas e calças estampadas conversavam amistosamente. Destes, três usavam brincos e eram tatuados. Todos eram consumidores de cigarro e café.

    À minha frente, um trio feminino roubou minha atenção. Uma das moças pintara os cabelos na cor cereja, a segunda, na cor cenoura e a ultima, tingira as madeixas na cor pink. Até tentei fingir naturalidade mas,  volta e meia, meu olhar ‘tropeçava’ na intensidade daqueles tons.

    Enquanto me sentia um estranho, já que o único sem percing, tatuagem ou tinta nos cabelos era eu, percebi que de longe alguém me olhava. Ela caminhou lentamente e com uma voz tímida indagou:

     “- Wilson?!”  Respondi que sim, daí se apresentou: sou Michelle!

    Ao me levantar e estender-lhe a mão a fim de cumprimenta-la, senti uma sutil recusa. Ao invés da saudação tradicional, ela acolheu-me com um abraço e um sorrisão. Depois rumamos para uma área externa onde havia sol, sobras e silêncio.

    Mal nos acomodamos e iniciei com o clássico pedido:

     – Identifique-se, por favor?

    Em poucos minutos, falou-me de muitas coisas. Dentre estas, que faz parte de vários projetos em defesa da mulher, que “não é fácil atuar em frentes feministas”, e ainda, que  “a mulher não quer nem mais, nem menos, só a igualdade de direitos mesmo.”

    Segura, Michelle Sá explica a importância da política na vida de quem luta para conseguir ao menos ser notada e ouvida. “A política é uma forma de dizer não à opressão, de quebrar o estereótipos como ‘feminazi’,  e,  sobretudo,  de dar um basta à ‘objetificação’ da mulher, declara.”

    Outra questão abordada por Michelle Sá é o direito de escolha. “Querer ou não ser monogâmicas, querer ou não ter marido, querer ou não ser mãe. São escolhas muito simples e soam como coisas muitos radicais pois, a estrutura social é machista, afirma.”

    A feminista crê que, se os homens respeitarem os direitos de escolha da mulher, talvez seja possível um equilíbrio entre feminismo e machismo. “Ao longo da história nossos direitos foram limados. Houve muita perseguição, houve muita brutalidade mas, também houve muita resistência, diz.”

    A atriz aposta na conscientização por meio da arte para promover a mudança. As Bacurinhas, por exemplo, projeto do qual Michelle faz parte e muito se orgulha porque, discute a feminilidade. As intervenções ocorrem nas ruas, embaixo de viadutos ou em praças. Nuas, oito atrizes apresentam fatos do cotidiano, e por meio da arte, expõe aos gritos os abusos que as mulheres vivenciam diariamente.

    De acordo com Michelle, quem assistiu à performance, dentro da mostra ‘Diversas’, convenceu-se de que a mulher não é só uma bu**, é muito mais que uma vagina.  Elas têm sentimentos, sonhos, objetivos… “Precisamos ser ouvidas, e principalmente respeitadas” declara.

    Perguntada sobre a importância da internet na difusão das ideias, Michelle Sá, ficou alguns segundos em silêncio, depois declarou o seguinte: “A internet democratiza pois, alcança os anônimos na sociedade e estes, municia com vez e voz. É a materialização da autonomia. Vai além, mas tanto serve para denunciar abusos, quanto para convocar para movimentos.”

    As intervenções políticas e a artísticas que Michelle ajuda a promover têm razão de ser: conscientizar a o povo de que liberdade, igualdade e sororidade* são tão essências tal qual o oxigênio que nos mantem vivos. Michelle Sá tem de altura 1,60 e pesa 55 kg. Fragilidade??? Só aparência. A atriz segue firme na luta, sempre e sempre capitando os olhares.

    * Sororidade – irmandade entre as mulheres.

     

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  • Edu sem fronteiras

    Edu sem fronteiras

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    Foto: Wilson Albino Pereira

    Wilson Albino Pereira

    “Liberdade – essa palavra que o sonho humano alimenta: que não há ninguém que explique, e ninguém que não entenda” (Cecília Meireles).

    Se pudesse, Eduardo Martins de Carvalho, 22 anos, estudante, gastaria as veredas passeando por esse mundão. Primeiro, seus pés ‘beijariam’ o solo, depois, ignorariam escorregões, topadas e perfurações. Se sentisse câimbras, cravaria ainda com mais força os pés no pó desse chão, e, diria para si: “Estou proibido de desistir”. Em suas andanças, ia constatar que muito além do que seus olhos podem ver, tudo é horizonte.

    Só no mundo do faz de conta, Eduardo exerce, plenamente, seu direito de ir e vir.  Em seus sonhos fica de pé, anda ou corre sem precisar ser ajudado por familiares, ou por braços solidários de estranhos. Em sua imaginação, ele baila sem os incômodos tutores*, esses aparelhos que, comprimem demais seus tornozelos, a ponto, inclusive, de deixa-los em carne viva.

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    *Tutor de Sarmiento

    Eduardo demorou a nascer, e, isso causou-lhe paralisia cerebral, de acordo com as explicações de sua mãe, Dona Darci. Por esse motivo, diariamente, ele faz fisioterapia, fonoaudiologia e terapia ocupacional. Atualmente, são necessários quatro ônibus para chegar aos destinos e cumprir sua agenda lotada de tarefas. Para regressar ao lar, são necessárias outras quatro conduções.

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    Disputa no Sul de Minas rendeu ouro a Edu.

    Além dos estudos e da natação, Eduardo também se dedica a jogar bocha, um esporte que requer tanto habilidade quanto inteligência. “É mesmo apaixonante. Precisa ter mais jeito que força”, afirma. Já perdeu a conta de quantos campeonatos participou. Quando perguntado qual é o segredo para conquistar tantas medalhas, ele diz que, não há segredo, é só querer. Edu ainda informa que, mesmo febril, ou com dores nos rins, e até mesmo com sangramento nasal, jamais abandonou uma competição.

    Em uma conversa amigável, Eduardo abre o sorriso, a porta da casa  e do coração. Entusiasmado, fala de coisas diversas, dentre essas, ler e escrever poesias. Também fala sobre seus sonhos, da importância da internet como ferramenta de inclusão social, e por fim, segreda amores.

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    Livros e rascunhos

    Os textos escritos por Eduardo apresentam assuntos do cotidiano. Têm poesias e crônicas relacionados ao amor e à amizade. Já renderam pelo menos dez livros que, são reproduzidos sob encomenda e, distribuídos de forma independente.

    Já conquistou boas amizades e troca ideias, diariamente, com pessoas residentes em outros estados. Tudo graças às redes sociais.“De outra forma, talvez, isso nunca seria possível”, alega.

    Eduardo não se recorda qual foi a última vez que foi vitima de preconceito. diz que faz questão de perdoar e esquecer quaisquer ofensas. Prefere rememorar os bons momentos, as palavras carinho e incentivo que sempre recebe dos parceiros.

    Se as limitações físicas dificultam a agilidade, a rapidez do raciocínio compensa o que falta. No pensamento, Edu é mesmo ligeiro. Suas respostas surgem no rastro das minhas perguntas…

    Eu: Qual é seu maior sonho?

    Ele: Ah, são muitos mas, andar sem precisar de ajuda, estudar direito, me casar e constituir família, são alguns deles.

    Eu: Qual seu escritor preferido?

    Ele: Cecília Meireles, pois adoro as poesias dela.

    Eu: Qual a pessoa que você admira?

    Ele: pode ser duas?

    Eu: Claro.

    Ele: Minha avó, Maria Marta Martins que, é tudo pra mim, e minha professora Sônia Queiroz, que me ensinou a ler e me incentiva a todo momento.

    Eu: Qual é o artista que você mais curte?

    Ele: Zezo, ‘o cantor apaixonado’, o melhor do mundo! Ah, conhecer ele também faz parte da minha lista de sonhos.

    Eu: você disse que está apaixonado…?

    Ele: É isso mesmo. Estou perdidamente, loucamente apaixonado. O nome dela é…

    Infelizmente, caros leitores, não estou autorizado a revelar…

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    Sorridente e esperançoso, Eduardo segue a vida.

  • A arte de cuidar ou Humanismo contagiante

    A arte de cuidar ou Humanismo contagiante

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    Regina Coeli Magalhães Rodrigues – foto arquivo pessoal

         “Porque os dons e a vocação de Deus são irrevogáveis” (Romanos 11:29)

    Wilson Albino Pereira

    Ela havia terminado um plantão de 24h, e pacientemente, aguardava o esposo quando, percebi em suas mãos duas pastas, uma sacola e uma bolsa. Ofereci ajuda. Ela aceitou. Quis saber meu nome, informei. Mas, quando perguntei o nome dela… Um sorriso capaz de iluminar uma sala precedeu a resposta:

    “– É Regina.”

    A delicadeza de seus gestos situou-me – ali reluzia uma lady –, só apresentava semelhanças com pinturas harmoniosas. Afora isso, fui flagrado pela fragrância do perfume “L’aqua di Góia”, seu predileto. Ainda hoje, se alguma brisa ‘desavisada’ traz aquele cheiro, o passado “se faz presente”. Mesmo com o saguão onde funciona a Secretaria Municipal de Saúde (SMSA) lotado, naquela manhã, só ela se destacava.

    No momento em que Regina já ia embora, porteiros, auxiliares de limpeza e alguns médicos, seus colegas de profissão, lhe acenaram. Ela sorriu e acenou de volta. Daquele minuto em diante, colhi informações relacionadas à mulher que, humaniza a atmosfera quando trata a todos ‘amigueiramente’, sem ressalvas, distinções ou fingimentos.

    Demorou pouco até eu descobrir que Regina é natural de Bom Despacho, formou-se em Medicina pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), e, é casada há mais de 30 anos com Júlio César Albertino Rodrigues, advogado. Também soube que, da união nasceu um casal de filhos, e que Regina já tem um netinho.  Ademais, sei que ela gosta do cheiro de terra molhada, prefere a cor bege, ama bacalhoada, abacaxi, laranja, mexerica e, torce para o Cruzeiro.

    Regina Coeli Magalhães Rodrigues é múltipla. Tanto que, este texto poderia ser sobre: a) esposa; b) mãe; c) filha; d) avó; ou e) professora universitária. Embora partilhar saberes também seja sua paixão, o que de fato norteia sua vida é o amor que sente pela família.

    Portanto, angulações diversas poderiam ser dadas a este perfil mas, foquei na Regina médica, humanista e inclusiva.  A profissional que se imagina sempre em lugar de outrem na agonia da dor. O ser humano que sente por meio do olhar quando, alguém pertencente ao grupo de trabalho, não está emocionalmente legal. Regina valoriza as qualidades, crenças e desejos alheios.

    A Drª Regina ocupa o cargo de médica reguladora na Central de Internações de Belo Horizonte, (CINT-BH).  É auxiliada por equipes  que buscam leitos em hospitais especializados. Seu ofício requer tato e minúcia pois, as vagas disponibilizadas nunca atendem a demanda. Ao encontrar os leitos almejados, Regina, que tem a fé como o alicerce da vida, contagia a todos, quando agradece a Deus entre lágrimas, sorrisos e orações.

    Vale ressaltar que muitos pacientes infartados, oncológicos, renais ou portadores do vírus HIV, por exemplo, se conseguem internação,  é, de acordo com a Doutora, mérito da equipe que, já inicia os plantões ‘engrenada’, motivada, empática… Cuidar de gente é mesmo uma arte. Algo impossível de expressar só por meio de palavras.

    Indiferente nunca, soberba jamais. Mesmo ao final dos plantões de 24 horas, seu olhar emana ternura. “Meu trabalho é minha vida. Sou muito feliz com a escolha da minha profissão”, afirma. Se  quisesse, já poderia ter se aposentado há pelo menos sete mas, não consegue se ver longe de suas atividades. Seu nome é Regina Coeli Magalhães Rodrigues porém, há quem a considere a Doutora  amor.

  • A Única Em Milhares

    Wilson Albino Pereira

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    Foto Wilson Albino Pereira

    Rima rara

    Poema nascente

    Oscilas entre luz e gente

    Formosa forma

    Afável flor

    És tudo e mais

    És abrigo, alegria e calor

    És a cura para qualquer dor

    Grandiosa graça

    Amostra de paraíso 

    As floradas em dia de sol ou

    Em noites enluaradas

    Cultuam seu riso

    Alma romântica

    És a única em milhares

    Esplêndida

    Cativante

    Magistral

    Vital

      

  • Para Bem Além de “Gênero”

    Para Bem Além de “Gênero”

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    Casamento de Douglas Drumond e Luiz Silva Foto Arquivo pessoal

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    Por: Wilson Albino Pereira

    “Foi ótimo. Em 14 de março de 2015, me casei com Luiz Antônio da Silva, na Igreja Escandinava, em São Paulo. A cerimônia religiosa foi celebrada pela pastora Lana, mas um juiz de paz também esteve presente, o que conferiu legitimidade jurídica ao ato.” É assim que o jornalista e empresário Douglas Drumond relata seu casamento.

    Dois dias antes, S. M, produtora cultural, formada em comunicação pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), também se casou: “Minha companheira e eu vivíamos juntas há 30 anos. Não houve festa, apenas um juiz de paz e duas testemunhas vieram até nossa casa para oficializar a união”.

    Aos poucos, parece que as necessidades das minorias têm se firmado. S. M. garante que, há 3 décadas, era algo impensável o fato de duas mulheres ou dois homens se casarem. “No meio cultural, não sofri preconceito. As pessoas sabiam, olhavam de forma diferente para nós, mas ninguém falava nada”.

    S.M. e a companheira nem chegaram a cogitar a ideia de adotar uma criança. “Ficamos com muito medo do que a sociedade poderia fazer com a cabeça de nosso filho”, destaca. Douglas e Luiz Antônio sonham com a adoção, mas a ideia de inseminação artificial ainda é estudada. Para o jornalista, não há diferença entre famílias hetero ou homossexuais. “O importante é que se definam os papeis”, acredita. Ao longo da vida, Douglas sofreu diversos preconceitos, inclusive, no meio familiar, já que seu pai o abandonou ainda na adolescência.

    Panorama atual

    Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2013, no Brasil, realizaram-se 3.701 casamentos entre pessoas do mesmo sexo. Destes, 1.926 entre mulheres (52%) e 1.775 entre homens (48%). A maior proporção de casamentos homossexuais concentra-se no Sudeste (65,1%). O estado de São Paulo reúne 80,8% do total da região e mais da metade do país: 1.945 casórios homoafetivos, ou  52% do total nacional, apenas em 2013, seguido por Rio de Janeiro (211) e Minas Gerais (209).

    As pessoas favoráveis ao casamento gay acreditam que seja uma questão de justiça, pois garante direitos. Além disso, no que se refere às crianças, se adotadas, elas serão educadas e receberão afeto e atenção, além de aprender valores – atitudes bem contrárias às de tantos casais héteros, que concebem e, em muitos casos, simplesmente abandonam os filhos.

    Quem reprova a união homoafetiva, geralmente, aponta dedos acusadores, apela para a moral e os bons costumes e considera o matrimônio entre pessoas do mesmo sexo uma ameaça à família, à sociedade e à saúde psicológica das crianças a serem adotadas. Os simpatizantes do polêmico projeto “Cura Gay” são provas disso. “Depois da união civil, virá a adoção de crianças por parceiros gays, a extinção das palavras pai e mãe, a destruição da família”, afirmou o deputado Marco Feliciano.

    Desde 14 de março de 2013, por 14 votos favoráveis e apenas 1 contra, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) aprovou o ato que obriga cartórios a realizar qualquer tipo de união homossexual no país. A decisão aconteceu dois anos após esse tipo de união ter sido aprovada, unanimemente, pelo Supremo Tribunal Federal (STF). De acordo com o artigo primeiro da resolução: “É vedado às autoridades competentes [nesse caso, os cartórios] a recusa de habilitação, celebração de casamento civil ou de conversão de união estável em casamento entre pessoas de mesmo sexo, Resolução nº 175, de 14/05/2013, aprovada durante a 169ª Sessão Plénária do Conselho Nacional de Justiça (CNJ)”.

    No mundo

    Em 24 de maio de 2015, na Irlanda, em referendo, 62% dos votos foram favoráveis ao casamento gay, resultado importante para a comunidade internacional, pois se trata de um país católico onde, até 1993, homossexuais eram punidos com prisão. Em certos países árabes, quem se relaciona, sexualmente, com alguém do mesmo sexo, ainda corre sérios riscos de passar o resto da vida trancafiado. Em Uganda e na Nigéria, gays são tratados como subanimais.

    Nos Estados Unidos, o quadro é bem diferente. Além do distrito da Columbia, 37 estados americanos aprovaram o casamento entre pessoas do mesmo sexo, 26 por decisão judicial, oito por lei estadual e três por voto popular. Reportagem da BBC Brasil mostra que, desde 2013, a Suprema Corte decidiu que gays casados devem ter direitos aos mesmos benefícios que casais heteros.

    No estado da Georgia, nos EUA, isso representa, atualmente, uma conquista política e uma grande movimentação financeira, pois, a partir da decisão, criaram-se muitas agências matrimoniais com exclusividade para gays.

    Algumas pessoas assumidamente gays concederam entrevista a esta reportagem e toparam falar sobre homoafetividade e preconceito.

    Confira os depoimentos:

    Bruno Fernando, estudante, de 25 anos, ressalta: “Falar sobre união homoafetiva só não é tabu quando o assunto está relacionado ao filho do vizinho ou ao amigo. As relações no meio GLS não são tão duradouras. Sonho em me casar, mas não desejo cerimônia pomposa. Também sonho em ter um filho, deve ser algo mágico, mas adotar crianças, sobretudo as que foram abandonadas, pode ser uma maneira de criar cidadãos mais conscientes e menos preconceituosos”.

     

    L., 27, técnico Industrial, vive um relacionamento estável há quatro anos. As famílias de ambos sabem, aprovam e apoiam. Ainda assim, considera a união homoafetiva um tabu. “Evitamos carinhos em público. Nunca sofri discriminação, mas, com tanta gente louca à solta, o melhor é prevenir.” S. L. nunca pensou em ter filhos ou em se casar. Sonha com a compra da casa, com independência financeira e em ser feliz.

    Pós-graduado em Fisioterapia e professor universitário, H. S. diz já ter sofrido preconceito, inclusive de outros gays. Namora, mas não vive com o parceiro. Tem pretensões de se casar e de festejar o momento. “União homoafetiva é um assunto delicado. De um tempo para cá, abriu-se um espaço maior. Entretanto, falta habilidade para lidar com o tema de forma natural. Acredito que a estrutura familiar entre héteros e gays nada tenha a ver. Sou gay e meus pais são héteros. O Chicão (Francisco de Ribeiro Eller) é hétero e suas mães, Cassia Eller e Maria Eugênia Vieira Martins, eram gays”.

    L., 20, estudante de publicidade, sonha com casamento, benção e festa. Não só a homofetividade, mas o sexo também é tabu. Contudo, dependendo do lugar e das pessoas que estão na conversa, talvez deixe de ser tão polêmico. “Para dar esta entrevista, pensei muito, pois já sofri preconceito quando criança. Talvez porque era mais aparente meu jeito afeminado.”

    M.E, 29, auxiliar administrativa e estudante de serviço social: “A homoafetividade não deixou de ser um tabu. É fácil perceber o quanto as pessoas ainda se incomodam ao falar sobre o assunto, mesmo nos ambientes acadêmicos, onde esperávamos que as pessoas tivessem a mente mais aberta”. Em sua opinião, o que une duas pessoas é o amor, o respeito e o companheirismo. “Minha namorada e eu sonhamos em viver numa sociedade onde as pessoas se importem mais com problemas relevantes, não gastando energia em se preocupar com relacionamentos que não afetam em nada a vida pessoal de cada um. Sonhamos, também, em adotar duas meninas. Pretendemos educá-las, a fim de que não se tornem pessoas preconceituosas”.

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    Camilo Santos interpretando sua personagem – Janecrilza Jane Capotão – Foto arquivo pessoal

    Camilo Santos, 30, ator profissional, ganha a vida por meio das apresentações que faz em palcos paraibanos. Via rede social, informou que nunca foi vítima de preconceito por ser gay. Não sonha em se casar ou em adotar filhos, mas em ser feliz e poder se relacionar muito bem com quem está a seu redor. Ele acredita que uma família formada por héteros ou homossexuais em nada se diferencia. “O importante é que, na base familiar, haja respeito, educação e o mais indispensável: amor”.

  • Problema, desafio ou oportunidade?

    Problema, desafio ou oportunidade?

    Wilson Albino Pereira

    Quem se aproxima da porta que dá acesso à sala 115 do bloco B7, no Centro Universitário de Belo Horizonte (UniBH), campus Estoril, consegue visualizar toda parede lateral direita e parte do teto da sala, cuja cavidade é oval.  Nesse ambiente, alguns objetos ficam em mais evidência do que os móveis bege de escritório – a exemplo de uma pedra negra, que, de acordo com explicações do colecionador, é um pequeno pedaço de granito em sua forma bruta. Também há uma pintura abstrata – na qual é impossível explicar se o vermelho invade o azul (ou o contrário) – e, por fim, um pequeno cacto muito verde e quase sem espinhos.

    Mal adentrei o lugar e o futuro engenheiro ambiental se apresentou. A atitude proativa trouxe consigo, talvez, a maior marca da mineiridade: a desconfiança. Magno André de Oliveira perguntou-me, então: “Essa matéria… será publicada onde, mesmo? Qual é o objetivo disso, hein?  Você é funcionário do UniBH? Você está perto de se formar? Em que período está?”. Esclarecidas as dúvidas, tratei logo de inverter os papéis e parti para o questionamento. Afinal, não é o meu perfil que interessa aos leitores.

    Estudante de Engenharia Ambiental no UniBH, Magno nasceu em 14 de março de 1989, em Dom Silvério, cidade a 180 km  de Belo Horizonte. De acordo com o  Censo do IBGE 2010, o lugar possuía 5.193 habitantes e ocupa área de 195 km². Ao deixar a terra natal, em 2008, seu objetivo era se formar em Medicina. Estudou muito, mas, como não alcançou o alvo, o jeito foi mudar de sonho. Aconselhados por parentes, prestou vestibular na Universidade Federal de Minas Gerais, para Direito, passou e cursou o primeiro período. Embora tenha conseguido ótimas notas, abriu mão do curso, pois não se adaptou bem.

    Ele se orgulha de já ter publicado dois artigos científicos e exposto diversos trabalhos em importantes congressos, como o de Ouro Preto e o de Ipatinga. Todos os trabalhos realizados estão diretamente relacionados a duas riquezas incalculáveis: o solo e a água. O interesse por assuntos referentes ao meio ambiente foi decisivo para que Magno optasse por fazer Engenharia Ambiental. Em um mesmo ano, prestou três vestibulares e foi aprovado em todos. Na mesma época, também passou em um processo seletivo de emprego. Escolheu estudar e trabalhar no UniBH. “Além de não precisar me deslocar, ainda havia uma coisa muito importante: a bolsa ofertada pela Instituição, sem a qual eu não conseguiria dar sequência a meus estudos”, conta.

    Recentemente, ganhou o prêmio Santander com seu Trabalho de Conclusão de Curso, que gira em torno de uma questão essencial: diminuir os impactos ambientais causados pelos corantes usados pela indústria têxtil, uma vez que a água contaminada é descartada diretamente nos rios. Além de exterminar a vida aquática, os resíduos contaminam também o solo. Tal fato representa grande perigo para a população ribeirinha.

    A solução proposta por Magno é tratar a água com minerais existentes na natureza, antes que esta retorne aos leitos dos rios. O dióxido de ferro e o dióxido de titânio degradaram 100% dos corantes tartarazina e rodamina, além do azul de metileno. Em apenas 24 horas de tratamento, a água já está pronta para ser reutilizada.

    Vida incessante

    Além de participar de núcleos de iniciação científica, de trabalhar e estudar, de segunda a sexta-feira, Magno dá aulas particulares aos sábados e domingos. É fácil constatar que ele tem um ritmo de vida puxado, e que o caminho trilhado para alcançar a premiação ofertada pelo banco Santander foi bastante árduo. “Houve dias, por exemplo, em que estudei o projeto durante 11 horas. Fiz curtíssimos intervalos para descanso. Fiquei esgotado”, lembra.

    Ao falar da sensação de sufocamento e da pressão que às vezes sente no tórax – possível  efeito da rotina estressante –, Magno compara o dia a dia da gente urbana e do povo do campo. “Tudo aqui é  muito diferente”, conclui.  Recordar os pais que ainda moram na pacata Dom Silvério arranca-lhe suspiros “Às vezes, a saudade, os medos e as incertezas tiram meu sono, mas guardo bem meus sentimentos. Não choro por causa disso”, afirma.

    Quando perguntado sobre o momento da premiação, Magno fica em silêncio por alguns instantes. “Foi uma confusão de sentimentos, sabe? Lembro-me de ter ficado atordoado, e, em seguida, paralisado. Palavras que descrevam todas as sensações, eu, sinceramente, desconheço”, afirma.

    Segundo Magno, ao ouvir seu nome e sua colocação, foi como se a instituição, os mestres e os demais membros da equipe galgassem, a seu lado, degrau a degrau, até chegar ao palco. “Assim que coloquei as mãos no troféu e o ergui, foi como se todos que participaram dessa longa trajetória tocassem-no e o erguessem junto a mim”, descreve, emocionado.

    Em conversa que durou pouco mais de meia hora, Magno André de Oliveira revelou, entre outras coisas, que o livro que mais gostou é o Homem que calculava, de Malba Taham. Além disso, considera a vida uma alquimia. Ele, aliás, é colecionador de pedras e, agora, se prepara para o mestrado. Católico, tem como ídolos Steve Jobs e Renato Russo.

    Magno se dedica de corpo e alma aos projetos que inicia e sente saudade do lar e dos pais. É ansioso, tem medos e incertezas. “Tudo o que foi conquistado, até agora, é mérito de uma grande equipe. O segredo do sucesso é fazer o que se gosta. O projeto vencedor é, ao mesmo tempo, um problema, um desafio e uma oportunidade”, ressalta.


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  • Uma dose de alegria

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    Juliana Oliveira Foto Wilson Albino

    Por: Wilson Albino Pereira

    Há pelo menos dez anos que, Juliana Oliveira, 31, especialista em gestão pública de turismo abraçou uma causa: levar uma dose de alegria aos hospitais, orfanatos e creches por meio de contação de história, poesia e música. No momento em que Jujuba, a palhacinha interpretada por Juliana, entra nos corredores da oncologia infantil no Hospital Das Clínicas, alguns rostinhos se iluminam, em meio  a dor, a criançada sorri.

    Quando Jujuba para diante dos leitos e diz: “Oi genti!!! Podi entrá, genti? Podi genti?!” Se, lá de fora, gostosas gargalhadas são ouvidas, então,  está concedida a permissão para ingressar  nos leitos, nas vidas e nos corações das pessoas ali reunidas.

    Lili, a bonequinha que Jujuba manipula, cobra beijos na mesma proporção em que os distribui. Enquanto a criançada fixa os olhares nas gracinhas feitas pelo pequeno embrulho confeccionado com pano, linha e espuma, Jujuba se dirige aos pais, que deixaram seus lares em cidades interioranas. Abandonaram inclusive, a si próprios, com a intenção de tratar a enfermidade que avança contra os filhos.

    De algumas coisas Juliana faz questão: ofertar abraços acolhedores e, afirmar que não está ali com a finalidade de levar religião. Contudo, quem aceita interseção espiritual por meio de oração, é prontamente atendido.

    Aos responsáveis pelas crianças, há sempre uma palavra amiga, uma mensagem de conforto, esperança e avivamento. Nos ambientes diversos, Jujuba com um sorriso farto e olhos muito brilhantes, afirma e reafirma: “Tenha força mãe, tenha força pai, porque Deus é contigo. Tenham ânimo porque, estamos lado a lado nesta batalha!”    

    O relógio marcava 15h, quando o pequeno dedo indicador de Pedro Henrique* apontou no rumo da porta do quarto. Em seguida, o mesmo dedinho se recolheu rapidamente, como se tivesse vida própria… como se tivesse ido chamar os demais dedos. Depois, a palma da mãozinha virou-se para cima, e, juntos, indicador, médio, anelar e mínimo se esticaram e encolheram por vezes seguidas.

    Para compreender o ato, não foi necessário dizer nada pois, qualquer um sabe que aquele gesto significa – ‘vem, vem cá, vem!’ Protagonizado por um menino e uma palhacinha, o fato ocorreu no domingo, 10 de maio, Dia das mães.

    Aos olhos de muita gente, o episódio passou despercebido. A cena durou 10 segundos, se tanto. Parece pouco, contudo, foi tempo de sobra para encharcar de lágrimas as vistas do contador dessa história…

    Às vezes, nos quartos, o som da TV se mistura aos apitos emitidos pelos aparelhos, que monitoram os dados vitais de cada um daqueles que inspiram cuidados.  Se a sonoridade torna o lugar diferente, os uniformes emprestados pelo hospital aos pacientes e parentes, iguala tudo. Ali, naquele lugar, não há espaço para vaidades.

    As gentes, pequeninas ou grandes, tentam se solidarizar mutuamente. A sensação de que o tempo pirraça quando insiste em não passar, dá abertura para pensamentos negativos, e estes aumentam a angustia, provocam ansiedade e turbinam os pavores. Os sentimentos contraditórios acabam reprimidos por não haver a quem confidencia-los. Tudo isso potencializa a sofrimento.

    A emoção vivenciada no limite deixa a todos contritos. Se de um lado alguns filhos têm medo de morrer, do outro têm pais com medo de viver sem o filho que foi tão ansiosamente aguardado e, talvez por causa das circunstâncias, a cada segundo é mais amado.

    A tristeza cede lugar a alegria quando a moça e sua trupe, todos vestidos com trajes e adereços multicoloridos, adentram os quartos.  Daí por diante, o que se vê é puro humanismo. O amor ao próximo é transformado em ação. Isso explica como e porque as boas ações fazem ‘florescer poesia, chover música e alastrar a contação de historias’.

    Enquanto se transforma na Palhaça Jujuba, Juliana Oliveira pensa na atenção e alegria que levará às crianças e seus familiares. Jamais se sentiu desmotivada, mesmo quando visitava mais de 10 quartos em companhia de mais três pessoas. “Não desisti pois, acredito na importância desse trabalho”, afirma.

    Durante dez anos participando realizando visitas, Juliana coleciona histórias como, por exemplo, a de um menino de 5 anos, que há meses  está internado, e o pai o acompanha. “Ele fica com seu violãozinho nos dias das nossas visitas, não enxerga, mas sabe tocar, e, é bem participativo, sorri muito quando cantamos. nem parece que está em um hospital”, admira.

    Juliana afirma, que seu maior medo é se tornar insensível diante da dor alheia. Ela também diz que a atitude daquele menino a leva a refletir sempre pois, as pessoas não valorizam o bem mais precioso que possuem, que é a vida. 

    “Um sorriso de cada criança em um ambiente hospitalar faz cada dia valer a pena”, revela. Talvez esta última frase resuma a razão pela qual gente como Juliana e sua equipe passe parte de suas vidas se dedicando a projetos importantes como o Curando com um sorriso.

    * Pedro Henrique é um nome fictício.

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