Sou o único filho de uma união à moda antiga, ou seja, machismo predominante e condescendência feminina.
Meus pais não estudaram, mas ainda assim, transbordavam conhecimentos. Eram donos de outros saberes. Foram eles meus primeiros professores.
Certa noite, ganhei de presente uma cartilha de nome “Caminho Suave.” À luz da lamparina descobri uma coisa: o que une gente e livro tem nome – magia. Por isso considero a leitura minha cruz… minha luz… minha delícia.
Vivi em áreas rurais. Lugares longínquos de escolas. Só iniciei o primário, definitivamente, aos dez anos.
Em minha meninice houve períodos difíceis, épocas de privações alimentares, inclusive. Mas, em todo tempo, tive saciada minha fome de literatura. Contudo, quem de fato lançou a semente literária em meu coração foi uma professora de nome Tania Soares França Martins . Ela formou leitores em minha turma quando pediu que sentíssemos os livros, e, que estes eram ótimos amigos… Ela falara a verdade.
Hoje, minha pele já não tem a mesma elasticidade d’antes, há rugas em torno dos meus olhos e minhas têmporas estão cobertas por cabelos grisalhos.
Já sei… já sei… enquanto muitos profissionais já estão com suas carreiras consolidadas, vidas estabilizadas e muitos sonhos realizados, eu ainda semeio letras nas brisas, cultivo lavouras de narrativas e alegro-me ao ver germinar, florescer e frutificar as minhas tantas histórias https://dusoutros.wordpress.com/.
Ah!!! E, por favor, sem essa de dizer: “no meu tempo…” Enquanto houver boas histórias para contar, meu espaço é aqui, e meu tempo, agora.
À primeira vista, emoção, intuição e sensibilidade são palavras que descrevem o jeito de ser de @ramuslaemanueli, 31 anos, psicóloga clínica, hipnoterapeuta especializada em traumas, ansiedade e alteração do humor, e também pós-graduanda em neurociência afetiva. Foi a suavidade da voz que ditou o tom, enquanto os gestos e os sorrisos humanistas, respectivamente, acolheram e apontaram o rumo da palestra. Tudo isto e muito mais fez parte da programação do dia 17/07/2025, quinta-feira, na sala de vídeo na da Escola Municipal Professora Ana Guedes Vieira em Nova Contagem.
A roda de conversa, que teve como tema principal: “Cuidando de Cuida”, trouxe por meio de uma linguagem muto acessível, um assunto delicado: a saúde mental de quem tem como missão cuidar, proteger e zelar pelo bem estar de filhos diagnosticados com (TEA) transtorno do espectro autista, ou (TOD) Transtorno Opositivo Desafiador, ou (TDAH) Transtorno do déficit de atenção com hiperatividade dentre outros. A psicóloga falou sobre a importância dos responsáveis buscarem uma rede de apoio dentro da própria família.
Houve diversos bons momentos durante a palestra, mas tanto as técnicas de respiração, que de acordo com a psicóloga, possuem bases cientificas e são ferramentas poderosas para a regulação emocional, quanto o ato de abraçar-se consigo e se sentir seguro, trouxeram acalentos por meio da experimentação. Contudo, a partilha das vivências, das experiências e da dura realidade de cada família, fez brotar lágrimas em muitos olhares.
Em entrevista, Ramusla reforçou a importância da fé (espitualidade) aliada à neurociência. “O uso de psicotrópicos devidamente receitados pelos médicos é de extrema importância. Embora ainda haja alguns tabus”, informa e continua, “ela (a medicação) em alguns momentos é essencial, pois não substitui a psicoterapia e pode ser uma grande aliada nas horas de fragilidade emocional”, conclui.
Ao final da palestra, fiquei pensando nos males causados por estes acelerados tempos ultramodernos, na falta de empatia e nas incontáveis formas de intolerância. O homem, que já explorou as profundezas marítimas, o solo lunar e domina diversas fontes de energia ainda desconhece ou não entende bem os sentimentos, medos e desejos que trazem dentro de si. Mais do que nunca é a hora e a vez de quem cuida se perguntar: como estou me sentindo hoje?
P.S:. A Psicóloga aceitou o convite que foi realizado pelo Atendimento Educacional Especializado (AEE), que é um serviço complementar ou suplementar ao ensino regular, oferecido a alunos com deficiência e transtornos globais.
A entrevista durou pouco mais de uma hora. Neste período lembrou-se facilmente de nomes, datas e fatos. Ao longo da conversa, não se ouviu nenhum ‘ã?’ ou ‘hen?’. Trocando em miúdos, aos setenta e cinco anos de idade, Sr. Efigênio Mendes, técnico em rádio eletrônica, está ‘tinindo.’
Homem de rotina, como ele próprio se considera, em dias alternados, caminha ou pedala. Depois, segue para Rua Cruzeiro do sul, número ‘meia um’, local onde funciona sua oficina, “Aqui é minha bagunça organizada. Só eu sei entender minha confusão”, revela. À tarde é o momento do garimpo. Hora em que sai a procura de sucatas eletrônicas ao longo da Rua Itapecerica.
“Aqui é a bobina de realimentação, aqui está a resistência, nestes pontos estão as conexões, explica o senhor profissional. Por meio da entonação e dos gestos, percebe-se que não é de hoje que ele transformou ofício em prazer.
Os gramofones, principalmente aqueles fabricados por volta de 1905, as radiolas de 1950 e gravadores do modelo Akai, multipistas, 16 canais, fabricados em 1975, são aparelhos que ele conhece bem melhor por dentro que por fora.
As máquinas que chegam escangalhadas, após receber os reparos advindos de mãos experientes, saem da loja em pleno funcionamento. “Os donos, quase sempre colecionadores, alegram-se ao encontrar suas relíquias totalmente restauradas”, pontua.
Aos doze anos se interessou por concertar rádios, fez um curso e não parou mais. “Ainda não encontrei aparelhagem que eu não conseguisse dar jeito”, fala orgulhoso. As empresas atuais só fabricam rádios transistorizados, “O jeito é modificar as poucas peças que encontro”, afirma.
Se meios aos descartes eletrônicos vê-se uma válvula ‘cansada’, termo usado pelo Sr. Efigênio, “A única opção é inverter sua voltagem, isso pode garantir sobrevida ao aparelho e à peça”, esclarece. O concerto pode gerar felicidade simultânea. Tanto o colecionador, quanto o técnico responsável pela manutenção, compartilham da mesma alegria. Quando perguntado qual a razão de trabalhar tanto, ele respondeu: “Amo e me divirto com o que faço, além disso, recebo pelo concertos.”, informa.
Ele nasceu com catarata congênita, a doença torna o cristalino opaco. Durante boa parte de sua vida, tudo o que leu foi em braile. Entretanto, após cirurgia, passou a enxergar mas, bem pouco, e, só do olho direito. “O lugar onde encontrei apoio foi no Instituto São Rafael, lá aprendi a me virar”, alega. Apesar da baixa acuidade visual, Ele afirma que isso não o atrapalha. As duas luminárias e as lupas se tornaram ferramentas essenciais, são elas que possibilitam os concertos.
Ouvir rádio é sua maior distração, o faz durante todo o tempo. Nostálgico, lembrou-se de orquestras que tocavam tango. Recordou-se também de programas que marcaram sua vida, dentre estes, “Relíquias Brasileiras”, apresento Aprígio Penido Neto na Rádio América, e “Noites que não voltam mais”, produzido e apresentado por Geraldo Tavares na Rádio Inconfidência.
Ao falar do encerramento das atividades da Rádio Guarani FM, Sr. Efigênio se emociona. “Ainda me restou a Itatiaia e a Inconfidência”, informa. Quando a nostalgia quase lhe embargou as palavras, de súbito ele desse: “ah menino… quero lhe mostrar uma joia.”
Quem ainda não ouviu dizer que quando idosas, as gentes regressam à meninice? Pois bem, pelo menos com o Sr. Efigênio, pude constatar exatamente isso. Ele não conseguiu, e nem quis disfarçar sua alegria ao apresentar alguns de seus xodós:
“-Olha este rádio, foi fabricado em 1952, feito com peças genuinamente brasileiras. Brasileiras ouviu?”, enfatiza. “Atente para o detalhe, olhe a alça, reparou bem na alça?! É acrílico. Percebe?! ACRÍ-LI-CO”, repete. “Sinta o peso, sinta! Compreenda que este era um rádio portátil, entende? Indaga”. Sr. Efigênio fez questão de abrir o rádio, fiquei surpreso ao ver que o ‘recheio’ do aparelho era cor de ouro.
Minutos depois, Sr. Efigênio Mendes, um ‘carioca amineirado’, retomou fôlego e, repetiu a mesma dose de empolgação ao apresentar-me outra valiosa peça de sua coleção. “Olha este outro rádio! Olha! Que beleza! É de 1940, atente para o seguinte detalhe” continua…
Busque entre europeus recém-chegados arquitetos, marceneiros e artistas
Sobrando estrangeiros, meta-os de dia em lavouras, à noite em favelas
Ache empreendedores, gringos ou nacionais
Dê casas aos funcionários públicos ainda moradores da velha capital
Promova educação, saúde e cultura
Construa hospitais, cemitérios e casas de tolerância
Ps:. Orgulhe-se de si. Admire seus feitos. Só não fique frustrado se, a frase positivista “ORDEM E PROGRESSO”, for substituída por bagunça e retrocesso.
Os desavisados que passam por ali têm, subitamente as narinas invadidas pelo fedor proveniente da urina e das fezes de quem vive no local. À luz do dia, prostitutas e travestis “em fim de carreira”, se vendem por cinco reais, ou até por menos. Em certos dias, um maço de cigarros é o pagamento pelos serviços sexuais prestados.
Desgrenhados e envolvidos em cobertores imundos, mendigos, alcoólatras e ‘craqueiros’ transitam no centro e no entorno do espaço público. Alguns marcham e batem continências, outros ninam a si próprios mas, a grande maioria vive em estado catatônico, contemplando o nada.
Não devia mas, essa é a rotina entre os cruzamentos das Avenidas Santos Dumont e Paraná, e das Ruas Curitiba e Caetés. Essas coordenadas correspondem à localização da Praça Barão do Rio Branco, popularmente conhecida como a Praça da Rodoviária.
O que era para ser belo se apresenta como grotesco. Tal fato inverte a lógica em alguns espaços públicos na Capital das alterosas. Talvez, nada destoe mais que o nome Liberdade em Equilíbrio, título do monumento feito de concreto armado, que mede 21m e ocupa a área central dessa praça. Em seu interior, na parte coberta da escultura, viciados em drogas disputam um espaço a socos e ponta pés.
Não é preciso ser especialista para perceber que, meio às arvores, serras e botecos, os espaços públicos, mais precisamente as praças, apresentam considerável redução no número de frequentadores. “Os tóxicos tornaram este lugar uma desgraça.” São palavras de Antônio Fernandes, 66, aposentado. “Há 20 anos, não era essa pouca vergonha não. Tem gente que desembarca do ônibus na rodoviária e ao passar por aqui é assaltado. Quem mora aqui, se vier à praça para arejar as ideias, corre até o risco ser assassinado. Acho que não tem como piorar mais”, lamenta.
Ao longo da semana, as celebrações de cultos, a venda de produtos homeopáticos ou as apresentações de mágica dividem o ambiente. Os roubos, as brigas e o consumo de drogas ocorrem frequentemente. O que aumenta a sensação de insegurança vivenciada pelos belorizontinos.
Ilza Maria, 54, vendedora, afirma que “Cidadão honesto, gente trabalhadora, não fica parada ali, naquele antro.” De segunda a sábado, ela atravessa a Praça Barão do Rio Branco só para ‘encurtar’ caminho, informa. Diz já ter visto tanta coisa acontecer ali que nem é bom recordar. “Para servir o senhor deus crack, tem gente capaz de tudo, até matar.” Informa.
A inexistência de mares ou excesso de bares serviu para popularizar ainda mais a fama da cidade planejada e inspirada à imagem e semelhança de Washington nos Estados Unidos, entretanto a violência, o tráfico de drogas e a prostituição alcançaram patamares alarmantes e talvez irreversíveis. Por isso, a população da Cidade Jardim busca diversão em lugares mais seguros. Depois de passada onda dos ‘rolezinhos’, shoppings tem sido opção. “Será mesmo que a praça [ainda] é do povo como o céu é do condor”, tal qual afirmou Castro Alves?
Se um esportista busca vitórias, afirma-se a seu respeito que ele é bom, muito bom. De outro modo, se o atleta ignora dores, cansaços e limites, se é combativo e intenso – ou se, por causa do esforço, ele cai esgotado por terra, tais qualidades tornam-se representadas por uma só palavra: “raça”.
Na vida, quem tem raça rompe barreiras, quebra recordes e realiza, diante de olhares descrentes, o que, até então, era impossível. Há quatro anos, Úrsula Renata Nogueira dos Santos é Coordenadora do jornalismo esportivo da Rádio Itatiaia.
Quem está lendo este texto agora e acompanha a programação esportiva da Itatiaia, talvez se pergunte: “O que há de novo nessa informação?”. Asseguro-lhes de que nada de novo haverá. O importante nesta história é a exigência de uma condição indispensável a quem sonha em brilhar.
Só mesmo uma mulher cheia de “raça” para reger, com maestria, uma equipe na qual a maioria são homens. Importante frisar que parte do grupo não fez faculdade mas, traz na bagagem 50 anos de experiência. A teoria que Úrsula Nogueira estudou na academia aliou-se à prática adquirida pelos veteranos. Juntos, eles celebram o equilíbrio.
Sobre os desafios de se manter em um cargo, que geralmente, não é destinado às mulheres, Úrsula Nogueira afirma, que por meio do curso de jornalismo do UniBH, adquiriu autoconfiança e conhecimento, ferramentas essenciais ao profissional que têm objetivos.
Independentemente de gênero, homens e mulheres podem sim. ocupar os mesmos cargos, desde que estejam preparados para enfrentar os desafios. “A leitura de livros técnicos e de jornais especializados foram importantes em meu caso. O estudo diminuiu preconceitos, proporcionou estabilidade e ajudou na conquista de um espaço para o qual ser homem era requisito básico”, destaca.
Em relação à própria trajetória, Úrsula lembra que, “nada veio embrulhado em papel de presente ou com um laço de fita vermelho. Não foi fácil mas, alcancei o respeito dos chefes e colegas de trabalho. Para chegar até aqui, conciliei dedicação, compromisso e responsabilidade”.
Para conquistar seu sonho, a jornalista abriu mão dos momentos de lazer e teve o apoio e a compreensão do marido e do filho. Além, é claro, da vontade de vencer: “A fé que tenho em Deus é meu diferencial, declara”.
Quando é pleno outono, a luz pálida de um sol desbotado é quem dá o tom. Sintoniza gente e temperatura climática numa mesma frequência. Se algumas árvores ainda apresentar copas majestosas, em questão de dias, elas se abreviam. Resumem-se a caules escuros e galhos, que se despem voluntariamente. No chão, as folhas ancestrais misturam-se às lembranças de épocas distantes, assim, elas reprisam e prevêem
o fim de um ciclo.
Mas, independente da estação do ano, ele rasga o solo, e no pó deposita inférteis sementes. Tão mortas que, se mil vezes plantadas, mil vezes não germinam. Acha natural que, uns pesadelos lhe torturem o juízo.
Certa noite, sonhou que tomava sopa em um caixão, e dentro do ataúde, boiavam cabelos, dentaduras e vermes. Noutra ocasião, ao repousar a cabeça no travesseiro o sono não veio, aliás, sobrevieram-lhe incontáveis e acelerados pensamentos… imagens diversas se atropelavam, entrechocavam-se, davam nós em si. Instantes depois, as mesmas cenas se repeliam, perfilavam-se, perpassavam-se até se transformar em um redemoinho de figuras com imagens de gente sendo injustiçada, violada e oprimida.
De segunda a sábado, ainda que chova sem trégua, ou pareça o sol ainda mais ardente que o habitual, o especialista no cultivo de sementes nulas oferece, de si o máximo, mesmo sabendo que receberá os mínimos: salários e agradecimentos. É consciente de que, para ser agricultor é preciso não só conhecimento e coragem mas, antes de tudo. Vocação.
Sempre afirma que só vai haver justiça no mundo quando as leis e a morte forem similares. Na hora do vamos ver, o certo seria ignoram cor, credo, sexo, religião ou posição social. Era para ser assim: simples como pingar um “i” ou cortar um “t” e pronto.
Em sua profissão, as materializações do preconceito ocorrem por meio de um olhar enviesado, ou do silêncio capaz de machucar os ouvidos, ou mesmo da ausência total de gestos. Um sem número de vezes, sua mão ficou estendida, no vácuo. Até parece que pratica o pior dos crimes quando se apresenta: “Prazer, sou Cláudio Marcelo da Fonseca, o coveiro.”
Já se passaram 17 anos desde que ele trocou o “Óxente” de Vitória da Conquista pelo “Uai sô”, de Belo Horizonte. As necessidades de concluir o segundo grau e ingressar numa faculdade foram os motivos para o êxodo. Ângelo Andrade, 34, enfermeiro formado pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), é baiano de nascimento, alma e coração, mas mineiro por escolha.
Quem vê as postagens com declarações positivas e as fotos do Face de Ângelo, nas quais o atleta sempre aparece sorridente, não faz ideia de quanta garra ele precisou ter, a fim de provar, primeiro para si e depois para quem duvide, que querer e vencer são palavras similares.
Quando criança, ele foi atropelado por um veículo que invadiu a calçada. Ao volante, a personificação da irresponsabilidade: um motorista alcoolizado. Se as lembranças relacionadas ao acidente há tempos estão sepultadas, as cicatrizes trazem à tona e dimensionam quanta violência houve no momento do impacto.
Nos últimos 28 anos, Ângelo passou por inúmeros procedimentos cirúrgicos. Além de tudo isso, passou por incontáveis sessões de fisioterapia. Desde menino, a dor é recorrente em sua vida – tanto no passado, em períodos pós-operatórios, quanto no presente, já que Ângelo tem desvio na coluna, outra sequela do acidente.
Após a amputação, o maior incentivo para a prática de esportes veio dos pais, que matricularam Ângelo no judô. “Em nenhum momento vi a deficiência como algo limitador. Muito pelo contrário, encaro como um desafio a mais”, afirma.
Com a mudança para Belo Horizonte, a prática esportiva ficou em segundo plano. A dedicação à carreira acadêmica, ao trabalho ou aos estágios consumia boa parte do tempo. A vida sedentária resultou em sobrepeso, e, por tabela, aumento da dor cervical.
Ângelo se assustou ao notar que pesava 92 quilos. “Minha primeira atitude foi iniciar uma caminhada, depois, consultar um médico para saber se eu poderia retomar outras atividades físicas”, lembra.
De acordo com o esportista, o acompanhamento nutricional, aliado aos exercícios, ajudou-o a perder peso e ganhar qualidade de vida. “Todo começo ou recomeço tem suas dificuldades. Manter-se firme nos propósitos exige disciplina. Retomei, a princípio, com caminhadas noturnas, alternadas e curtas”, diz. “Mais tarde, gradativamente, aumentei a frequência, a duração e a intensidade”.
Diversificação
Depois de experimentar a caminhada, Ângelo tornou-se nadador e, em seguida, zagueiro em um time de futebol, no qual quase todos os jogadores são amputados. Atualmente, ele também é voluntário na Associação Mineira de Desportos para Amputados, a AMDA-MG.
As caminhadas, a natação e o futebol deram outro rumo à vida de Ângelo. O novo condicionamento físico possibilitou que o atleta praticasse corridas de rua com percurso de 5 e 10 quilômetros. Entretanto, a maior conquista se relaciona à meia maratona. “Hoje, corro 21 quilômetros”, conta, orgulhoso.
“O custo da prótese apropriada para corridas é alto demais. Infelizmente, o governo não oferece ajuda para tal aquisição”, alega. Em seu dia a dia, a prótese que usa para caminhar é a mesma das corridas. É com esta perna mecânica adaptada, e com o auxilio de duas muletas, que o esportista participa das competições.
Além da melhoria do condicionamento físico, o esporte trouxe outros benefícios à vida de Ângelo: “Olha, o difícil é te dizer o que a prática esportiva ainda não me trouxe”.
Por meio da corrida, por exemplo, a história do atleta foi registrada em um livro, Eu amo correr, lançado pela Editora Mol. É por meio da corrida que o esportista voltou a jogar fotbol. Também foi por meio da corrida que Ângelo conheceu uma cantora, e com ela construiu uma amizade. “Sempre que podemos, corremos juntos”, conta.
A amizade lhe proporcionou uma de suas mais fortes emoções. Ângelo contou que, certa vez, de férias em sua cidade natal, foi a um show da cantora e amiga Zélia Duncan. Ao vê-lo na plateia, ela pediu licença ao público e contou a história de Ângelo, a quem dedicou uma canção. “Quando vi e a ouvi cantando ‘Por isso corro demais’, pensei que ia flutuar”.
Segundo o atleta, ninguém deve olhar para as pessoas que possuem deficiência com “coitadismo”. “Quando corro, fico feliz ao ser aplaudido e incentivado pelo público, mas meu combustível vem de minha vontade de ultrapassar limites,” explica.
Ângelo diz que exercitar-se com frequência pode até causar desconforto no início, mas os benefícios, em longo prazo, são incontáveis. “É bom lembrar também que, para iniciar, só é preciso uma coisa: coragem”, resume.
Sobre o esporte, Ângelo Andrade declara: “É meu alicerce, minha alegria, minha filosofia de vida, minha forma de inclusão. Se houve momentos em minha vida nos quais pensei em recuar, foi para tomar mais impulso e, assim, ir além!”.