Certa noite, um morcego invadiu meu quarto e atrapalhou meu sono. Os rodopios ininterruptos e os voos rasantes potencializaram minha imaginação. Por alguns segundos me senti em um poema de Augusto dos Anjos. Os quirópteros que violaram as intimidades dos nossos dormitórios são muito diferentes. No texto do poeta, o bicho é a consciência humana, cuja qual o escritor tenta, sem sucesso, exterminar a poder de cacete. Em meu texto, bem mais modesto, trata-se apenas de um mamífero de hábitos noturnos que, neutralizei com uma boa travesseirada.
Pela manhã, me lembrei do episódio e passei o dia pensando na linguagem que o poeta paraibano utilizou para compor seu livro, Eu e Outras Poesias. O único publicado em vida que, se analisado apenas por causa dos versos rimados e decassílabos, já representa um feito artístico e estético grandioso.
O vigor dos versos tecidos por Augusto dos Anjos põe fim às ilusões terrenas, pois sequestra o pensamento. Depois de enclausurada a imaginação do leitor fica refém e vai, a reboque, quer seja para além da podridão dos cemitérios, quer seja para além dos sêmens depositados nas vulvas das mulheres públicas. É impossível ler o Eu e Outras poesias e não ser inundado por sensações atribuladas, asquerosas e melancólicas.
Não fico admirado se, de repente, alguns visitantes do mundo sombrio construído pelo cientificismo, naturalismo e lirismo de Augusto Carvalho Rodrigues dos Anjos regressarem chocados por causa da condição humana limitada, finita e frágil demais.
Na obra do poeta “Filho do carbono e do amoníaco”, a acumulação de bens, proezas sexuais, consumo de cultura, mudanças nas estações do ano e muitas outras coisas estão ligadas ao espetáculo do horror, direcionadas para uma realidade apavorante e atreladas ao futuro. E o futuro, para qualquer vivente… É a morte.

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