
Por:Wilson Albino Pereira
O humor inteligente e brasileiríssimo é quem dita o tom na terra estrangeira. Talvez, por isso, o livro Trançando New York, escrito por Luis Fernando Veríssimo seja importante. Os textos reunidos neste volume foram escritos entre agosto de 1980 e fevereiro de 1981, quando Veríssimo era correspondente internacional do jornal Zero Hora.
Algumas crônicas apresentam os aspectos arquitetônicos, sociais ou culturais relevantes na metrópole. Tanto a vida particular dos cidadãos nova-iorquinos – pg 60, quanto cotidiano daqueles que emigraram em busca da terra prometida – pg 57, nada escapa à curiosidade do jornalista. O escritor descortina o dia a dia de alguns dos moradores de Nova York, que, no fundo, como o próprio escritor afirma na última linha da página 15 – “é uma cidade pequena.”
Nenhuma das 37 crônicas têm o mesmo nome que o livro. Na verdade, o que justifica o título são as 56 ilustrações que o artista plástico e também jornalista Joaquim da Fonseca fez utilizando apenas papel uma caneta esferográfica. Ainda que a técnica e os materiais utilizados por Fonseca sejam simples, os traços formam figuras ricas em detalhes.
Não é exagero afirmar que a linguagem utilizada por Veríssimo possui um misto de visgo e laço. A ótica pela qual alguns assuntos delicados são abordados, os desfechos inimagináveis das crônicas e o jeito de escrever pouco e conseguir dizer muito entre linhas, tudo é muito convidativo.
Veríssimo tenta fazer-se entender por meio de uma linguagem bem familiar. Porém, para que haja sucesso na comunicação, o conhecimento de mundo que o leitor traz consigo, ou seja, sua bagagem cultural, é imprescindível. Os elementos lingüísticos, como as intertextualidades e os implícitos, apenas “são flagrados” se o leitor entender que o encadeamento de ideias existentes no interior texto é coerente.
O escritor sempre “avizinha-se” de seu leitor. Principalmente daquele não faz parte da elite. Isso ocorre, por exemplo, quando o jornalista utilizou o gerúndio do verbo “traçar”. Numa linguagem menos formal, o que não significa desobediência às regras gramaticais, traçar e comer são equivalentes. É bom lembrar que tais palavras também podem estar ligadas ao sentido sexual, dependendo do contexto evidentemente.
Os leitores percebem que Veríssimo é um jornalista que ouve as fontes, interpreta os fatos e organiza as informações. Quem está lendo essa resenha agora deve estar pensando: Poxa! Mas isso é o mínimo que se espera de um jornalista! Contudo, ao contrário dos outros profissionais da informação, Veríssimo é sutil quando exerce em seus textos, os seus escassos e imaginários momentos de poder.
Qual show está em cartaz? Quais são os restaurantes mais luxuosos? Quais os cafés mais chinfrins? Qual é a variação de preços? É de tais assuntos que trata a crônica da página 17 – Espetáculos. A tipologia (guia) o e gênero (crônica) aparecem fundidos no mesmo texto. Durante uma leitura agradável, o leitor quase não se dá conta de que está diante de uma agenda cultural.
Em certos momentos, o cronista descansa o humor e foca em acontecimentos perturbadores e tristes, como “um ‘esfaqueador’ louco no meio da multidão” – pg 105, ou coisas belas como o inverno, que segundo Veríssimo, é tão rigoroso que quem sai à rua desprotegido, “corre o risco de perder as orelhas” – pg101, ou o outono, época do ano na qual “a cor das folhas das arvores vão do verde limão ao mais escandaloso rosa” – pg 71.
Na página 134, a crônica – Até O Próximo, deixa o leitor ainda mais íntimo do cronista. Meio à invencionices do escritor como a – que Frank Sinatra não mais seria embaixador na Itália, mas, que um dueto com o Papa já estava confirmado, Veríssimo chega a revelar que sua filha mais velha é babá, e que seu filho mais novo jura que entendeu tudo o que disse papai Noel ao telefone– Rô, rô, rô.
O universo estrangeiro que Veríssimo constrói por meio das palavras sintoniza o leitor e a estação climática numa mesma frequência. Por meio das narrativas é quase possível tocar as árvores que semanas antes chegaram a exibir copas majestosas, no outono transmutaram as cores, no inverno se abreviaram resumindo-se a caules e galho despidos. Já a violência urbana e o centro de múltiplos acontecimentos culturais daquela época, ainda hoje seguem inabaláveis.
As críticas e as preocupações do escritor à cerca de maníacos à solta nas ruas em 1980 são ingênuas, se comparados aos atos terroristas praticados por fanáticos e loucos atualmente. Além do humor inteligente que dita o tom em terra estrangeira, talvez, o livro escrito por Veríssimo seja importante porque aviva as memórias de quem viveu, ainda que por algum tempo, na cidade mais populosa dos Estados Unidos. Ao trazer para o presente as recordações dos outonos e invernos que, de tão distantes, não passam hoje de pó no pó, o livro de crônicas de Veríssimo deixa como legado ao menos uma dúvida – será que há 35 anos os habitantes da Big Apple não eram mais felizes?


Deixe um comentário