Capitã dos olhares

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Michelle Sá foto: Wilson Albino

Por Wilson Albino Pereira

“Tô atrasada mas, tô chegando. Perdi a hora aqui. Me desculpa? Vou chegar às 11h, tá? Tô correndo aqui. Tô indo. Você espera?”, estas palavras foram escritas por Michelle Sá na terça-feira, 13 de abril de 2015, e, enviadas às 10:15h por meio do menssenger.

Foi também na mesma data que, atravessei pela primeira vez, os umbrais da porta que dá acesso ao prédio de Belas Artes da Universidade Federal de Minas Gerais, (UFMG), local escolhido por Michelle para conceder entrevista. Logo na entrada saudei ao porteiro que, retribuiu o cumprimento, em seguida, percorri um corredor largo que desemboca numa espécie de espaço de convívio.

Lá dentro é amplo. Quem avança em linha reta,  passa por uma arquibancada que, também serve de degrau e margeia uma sala retangular e funda, na qual velhas cadeiras e mesas de madeira pintadas de amarelo contrastam com chão, que é vermelho. Já a iluminação do ambiente fica por conta dos raios solares, estes atravessam uma cúpula semitransparente, e, ‘derrama’ luz em todas as direções.

A principio pensei em tomar um café mas, mudei de ideia. Acomodei-me no “degrau/arquibancada” de frente para saída, e de olhos bem abertos, feito dois girassóis, constatei que ali estavam reunidas  as gentes de visuais mais diferentes que já havia visto.

Cinco rapazes barbudos e cabelos trajando camisetas e calças estampadas conversavam amistosamente. Destes, três usavam brincos e eram tatuados. Todos eram consumidores de cigarro e café.

À minha frente, um trio feminino roubou minha atenção. Uma das moças pintara os cabelos na cor cereja, a segunda, na cor cenoura e a ultima, tingira as madeixas na cor pink. Até tentei fingir naturalidade mas,  volta e meia, meu olhar ‘tropeçava’ na intensidade daqueles tons.

Enquanto me sentia um estranho, já que o único sem percing, tatuagem ou tinta nos cabelos era eu, percebi que de longe alguém me olhava. Ela caminhou lentamente e com uma voz tímida indagou:

 “- Wilson?!”  Respondi que sim, daí se apresentou: sou Michelle!

Ao me levantar e estender-lhe a mão a fim de cumprimenta-la, senti uma sutil recusa. Ao invés da saudação tradicional, ela acolheu-me com um abraço e um sorrisão. Depois rumamos para uma área externa onde havia sol, sobras e silêncio.

Mal nos acomodamos e iniciei com o clássico pedido:

 – Identifique-se, por favor?

Em poucos minutos, falou-me de muitas coisas. Dentre estas, que faz parte de vários projetos em defesa da mulher, que “não é fácil atuar em frentes feministas”, e ainda, que  “a mulher não quer nem mais, nem menos, só a igualdade de direitos mesmo.”

Segura, Michelle Sá explica a importância da política na vida de quem luta para conseguir ao menos ser notada e ouvida. “A política é uma forma de dizer não à opressão, de quebrar o estereótipos como ‘feminazi’,  e,  sobretudo,  de dar um basta à ‘objetificação’ da mulher, declara.”

Outra questão abordada por Michelle Sá é o direito de escolha. “Querer ou não ser monogâmicas, querer ou não ter marido, querer ou não ser mãe. São escolhas muito simples e soam como coisas muitos radicais pois, a estrutura social é machista, afirma.”

A feminista crê que, se os homens respeitarem os direitos de escolha da mulher, talvez seja possível um equilíbrio entre feminismo e machismo. “Ao longo da história nossos direitos foram limados. Houve muita perseguição, houve muita brutalidade mas, também houve muita resistência, diz.”

A atriz aposta na conscientização por meio da arte para promover a mudança. As Bacurinhas, por exemplo, projeto do qual Michelle faz parte e muito se orgulha porque, discute a feminilidade. As intervenções ocorrem nas ruas, embaixo de viadutos ou em praças. Nuas, oito atrizes apresentam fatos do cotidiano, e por meio da arte, expõe aos gritos os abusos que as mulheres vivenciam diariamente.

De acordo com Michelle, quem assistiu à performance, dentro da mostra ‘Diversas’, convenceu-se de que a mulher não é só uma bu**, é muito mais que uma vagina.  Elas têm sentimentos, sonhos, objetivos… “Precisamos ser ouvidas, e principalmente respeitadas” declara.

Perguntada sobre a importância da internet na difusão das ideias, Michelle Sá, ficou alguns segundos em silêncio, depois declarou o seguinte: “A internet democratiza pois, alcança os anônimos na sociedade e estes, municia com vez e voz. É a materialização da autonomia. Vai além, mas tanto serve para denunciar abusos, quanto para convocar para movimentos.”

As intervenções políticas e a artísticas que Michelle ajuda a promover têm razão de ser: conscientizar a o povo de que liberdade, igualdade e sororidade* são tão essências tal qual o oxigênio que nos mantem vivos. Michelle Sá tem de altura 1,60 e pesa 55 kg. Fragilidade??? Só aparência. A atriz segue firme na luta, sempre e sempre capitando os olhares.

* Sororidade – irmandade entre as mulheres.

 

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4 respostas para “Capitã dos olhares”.

  1. Avatar de Emerson Ferreira
    Emerson Ferreira

    Linda materia demais kkkkk

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  2. Avatar de Ricardo Albino
    Ricardo Albino

    Respeito ao direito de escolha de cada um.Está aí o ponto de partida da verdadeira inclusão

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  3. Avatar de Cássia André
    Cássia André

    É isso ai. E viva a liberdade de expressão!

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