Wilson Albino Pereira
Quem se aproxima da porta que dá acesso à sala 115 do bloco B7, no Centro Universitário de Belo Horizonte (UniBH), campus Estoril, consegue visualizar toda parede lateral direita e parte do teto da sala, cuja cavidade é oval. Nesse ambiente, alguns objetos ficam em mais evidência do que os móveis bege de escritório – a exemplo de uma pedra negra, que, de acordo com explicações do colecionador, é um pequeno pedaço de granito em sua forma bruta. Também há uma pintura abstrata – na qual é impossível explicar se o vermelho invade o azul (ou o contrário) – e, por fim, um pequeno cacto muito verde e quase sem espinhos.
Mal adentrei o lugar e o futuro engenheiro ambiental se apresentou. A atitude proativa trouxe consigo, talvez, a maior marca da mineiridade: a desconfiança. Magno André de Oliveira perguntou-me, então: “Essa matéria… será publicada onde, mesmo? Qual é o objetivo disso, hein? Você é funcionário do UniBH? Você está perto de se formar? Em que período está?”. Esclarecidas as dúvidas, tratei logo de inverter os papéis e parti para o questionamento. Afinal, não é o meu perfil que interessa aos leitores.
Estudante de Engenharia Ambiental no UniBH, Magno nasceu em 14 de março de 1989, em Dom Silvério, cidade a 180 km de Belo Horizonte. De acordo com o Censo do IBGE 2010, o lugar possuía 5.193 habitantes e ocupa área de 195 km². Ao deixar a terra natal, em 2008, seu objetivo era se formar em Medicina. Estudou muito, mas, como não alcançou o alvo, o jeito foi mudar de sonho. Aconselhados por parentes, prestou vestibular na Universidade Federal de Minas Gerais, para Direito, passou e cursou o primeiro período. Embora tenha conseguido ótimas notas, abriu mão do curso, pois não se adaptou bem.
Ele se orgulha de já ter publicado dois artigos científicos e exposto diversos trabalhos em importantes congressos, como o de Ouro Preto e o de Ipatinga. Todos os trabalhos realizados estão diretamente relacionados a duas riquezas incalculáveis: o solo e a água. O interesse por assuntos referentes ao meio ambiente foi decisivo para que Magno optasse por fazer Engenharia Ambiental. Em um mesmo ano, prestou três vestibulares e foi aprovado em todos. Na mesma época, também passou em um processo seletivo de emprego. Escolheu estudar e trabalhar no UniBH. “Além de não precisar me deslocar, ainda havia uma coisa muito importante: a bolsa ofertada pela Instituição, sem a qual eu não conseguiria dar sequência a meus estudos”, conta.
Recentemente, ganhou o prêmio Santander com seu Trabalho de Conclusão de Curso, que gira em torno de uma questão essencial: diminuir os impactos ambientais causados pelos corantes usados pela indústria têxtil, uma vez que a água contaminada é descartada diretamente nos rios. Além de exterminar a vida aquática, os resíduos contaminam também o solo. Tal fato representa grande perigo para a população ribeirinha.
A solução proposta por Magno é tratar a água com minerais existentes na natureza, antes que esta retorne aos leitos dos rios. O dióxido de ferro e o dióxido de titânio degradaram 100% dos corantes tartarazina e rodamina, além do azul de metileno. Em apenas 24 horas de tratamento, a água já está pronta para ser reutilizada.
Vida incessante
Além de participar de núcleos de iniciação científica, de trabalhar e estudar, de segunda a sexta-feira, Magno dá aulas particulares aos sábados e domingos. É fácil constatar que ele tem um ritmo de vida puxado, e que o caminho trilhado para alcançar a premiação ofertada pelo banco Santander foi bastante árduo. “Houve dias, por exemplo, em que estudei o projeto durante 11 horas. Fiz curtíssimos intervalos para descanso. Fiquei esgotado”, lembra.
Ao falar da sensação de sufocamento e da pressão que às vezes sente no tórax – possível efeito da rotina estressante –, Magno compara o dia a dia da gente urbana e do povo do campo. “Tudo aqui é muito diferente”, conclui. Recordar os pais que ainda moram na pacata Dom Silvério arranca-lhe suspiros “Às vezes, a saudade, os medos e as incertezas tiram meu sono, mas guardo bem meus sentimentos. Não choro por causa disso”, afirma.
Quando perguntado sobre o momento da premiação, Magno fica em silêncio por alguns instantes. “Foi uma confusão de sentimentos, sabe? Lembro-me de ter ficado atordoado, e, em seguida, paralisado. Palavras que descrevam todas as sensações, eu, sinceramente, desconheço”, afirma.
Segundo Magno, ao ouvir seu nome e sua colocação, foi como se a instituição, os mestres e os demais membros da equipe galgassem, a seu lado, degrau a degrau, até chegar ao palco. “Assim que coloquei as mãos no troféu e o ergui, foi como se todos que participaram dessa longa trajetória tocassem-no e o erguessem junto a mim”, descreve, emocionado.
Em conversa que durou pouco mais de meia hora, Magno André de Oliveira revelou, entre outras coisas, que o livro que mais gostou é o Homem que calculava, de Malba Taham. Além disso, considera a vida uma alquimia. Ele, aliás, é colecionador de pedras e, agora, se prepara para o mestrado. Católico, tem como ídolos Steve Jobs e Renato Russo.
Magno se dedica de corpo e alma aos projetos que inicia e sente saudade do lar e dos pais. É ansioso, tem medos e incertezas. “Tudo o que foi conquistado, até agora, é mérito de uma grande equipe. O segredo do sucesso é fazer o que se gosta. O projeto vencedor é, ao mesmo tempo, um problema, um desafio e uma oportunidade”, ressalta.


Deixe um comentário