Estigma

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Foto: Wilson Albino Pereits

Por Wilson Albino Pereira

Quando é pleno outono, a luz pálida de um sol desbotado é quem dá o tom. Sintoniza gente e temperatura climática numa mesma frequência.  Se algumas árvores ainda apresentar copas majestosas, em questão de dias, elas se abreviam. Resumem-se a caules escuros e galhos, que se despem voluntariamente. No chão, as folhas ancestrais misturam-se às lembranças de épocas distantes, assim, elas reprisam e prevêem
o fim de um ciclo.

Mas, independente da estação do ano, ele rasga o solo, e no pó deposita inférteis sementes. Tão mortas que, se mil vezes plantadas, mil vezes não germinam. Acha natural que,  uns pesadelos lhe torturem o juízo.

Certa noite, sonhou que tomava sopa em um caixão, e dentro do ataúde, boiavam cabelos, dentaduras e vermes. Noutra ocasião, ao repousar a cabeça no travesseiro o sono não veio, aliás, sobrevieram-lhe incontáveis e acelerados pensamentos… imagens diversas se atropelavam, entrechocavam-se, davam nós em si. Instantes depois, as mesmas cenas se repeliam, perfilavam-se, perpassavam-se até se transformar em um redemoinho de figuras com imagens de gente sendo injustiçada, violada e oprimida.

De segunda a sábado, ainda que chova sem trégua, ou pareça o sol ainda mais ardente que o habitual, o especialista no cultivo de sementes nulas oferece, de si o máximo, mesmo sabendo que receberá os mínimos: salários e agradecimentos. É consciente de que, para ser agricultor é preciso não só conhecimento e coragem mas, antes de tudo. Vocação.

Sempre afirma que só vai haver justiça no mundo quando as leis e a morte forem similares. Na hora do vamos ver, o certo seria ignoram cor, credo, sexo, religião ou posição social. Era para ser assim: simples como pingar um “i” ou cortar um “t” e pronto.

Em sua profissão,  as materializações do preconceito ocorrem por meio de um olhar enviesado, ou do silêncio capaz de machucar os ouvidos, ou mesmo da ausência total de gestos. Um sem número de vezes, sua mão ficou estendida, no vácuo. Até parece que pratica o pior dos crimes quando se apresenta: “Prazer, sou Cláudio Marcelo da Fonseca, o coveiro.”

 *Estigma – Cicatriz, marca, sinal

5 respostas para “Estigma”.

  1. Gostei muito, Wilson.
    O nome é fictício, ou é algum coveiro da vida real?

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  2. O nome real. Isso foi fruto de uma entrevista. Ele é coveiro e trabalha na PBH.

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  3. Parabéns Wilson, gerou uma boa reflexão: “só vai haver justiça no mundo quando as leis e a morte forem similares”.

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  4. Se vc não pode com eles… pare e os observe.

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